quinta-feira, 18 de junho de 2015

Difícil é ser mulher

Difícil é ser mulher. Difícil é acordar feliz pela primeira vez depois de meses deprimida embaixo de uma coberta. Deprimida por ter que seguir padrões impostos por conta do meu gênero. Difícil acordar feliz e tentar sentir o ar limpo e fresco apenas para você, mas a sua felicidade ser estragada por causa de um leve comentário de um homem no bar sobre como sua bunda fica empinada nesta calça apertada. É difícil andar nas ruas, avenidas, calçadas, e não notarem como estou vestida (“mas ela é muito masculina! ” “ai, que piranha”, “que homem vai querer essa mulher?”) e se meu cabelo está bem penteado (“porque você não alisa?”). Não notarem no meu corpo. É dificil ser assediada todo o santo dia e ser obrigada a permanecer calada. Se reclamo, sou a louca. É difícil olharem para a profundeza do meu sorriso. É difícil ser mulher negra, e minha beleza estética – a única característica que é valorizada numa mulher – não valer de nada. Para nada. É difícil ser mulher lésbica, ficar tão contente por ter achado a mulher certa, o amor da minha vida, e depois perceber que ninguém fica feliz com isso. Perceber que eu não sou mais que um fetiche. Continuo senso hipersexualizada. Nenhuma mulher é livre. É difícil ser mulher em uma sala de candidatos a nova vagas de emprego, e minha inteligência ser questionada só porque um homem a questionou, a humilhou, não concordou. É difícil mostrar quem eu sou, quem eu quero ser quando eu não tenho voz em lugar nenhum. Em casa, no trabalho, no bar. E porque, claro, uma mulher não pode ser mais inteligente que um homem. Não pode ser mais forte que um homem. É difícil ser mulher na juventude, eu não posso transar com que eu quiser, já imaginou? Vão me chamar de piranha. Não me dou o valor. Mas meu irmão pode. Mas meu amigo pode. Então tá tudo bem. É difícil ser mulher e mãe, quando meu único dever é cuidar das minhas crias. Não tenho mais direito á lazer, farra, uma noite de bebedeira, senão, sou uma mãe que não cuida dos filhos. Descontrolada. Mas claro, o pai dos meus filhos pode! É difícil dar o sangue pelo meu filho, vê-lo crescer e eu virar seu maior pavor e temor. Mas e o pai dele? Aquele que me largou cuidando do meu filho, sozinha? É o herói. É difícil ser mulher e cometer erros. A traição é algo abominável. Imagina só. Mas meu pai traiu a minha mãe. “Ah, normal, homem é assim mesmo. ” Difícil é ser mulher e querer beber pra caralho. Não posso. Não posso porque homens são predadores. Qualquer passo e eles tentam se aproveitar quando veem mulheres bêbadas quase caindo. Difícil é ser mulher e ser estuprada, abusada fisicamente, psicologicamente e sexualmente. Além disso, a culpa é sempre dela. Difícil é ser mulher e me privarem da minha liberdade desde o berço, e crescer vendo meu irmão fazendo o que ele bem quiser. É homem mesmo. Agora eu tenho que me dar o valor. Aprender a cozinhar, varrer a casa e lavar louça. Difícil é ser objeto feito para consumo masculino, um pedaço de carne, muda, sem opinião. Difícil é nascer inferior só porque sou mulher e ter que provar superioridade de alguma forma durante a vida. O homem já tem desde que nasce. Difícil é não ser respeitada e ter que CONQUISTAR o respeito durante a vida. O homem já tem isso desde que nasce. Difícil é ser mulher e ser sensível, onde seus sentimentos nunca são ouvidos e vistos apenas como “draminha de mulher”. Só pra chamar atenção. Difícil é ser mulher e ter paz. Mulher não conseguiria paz nem se tentasse. Mulher não serve pra nada se não for pra servir ao homem. Difícil é ser mulher e passar por tudo que ela passa, e no final do dia ainda ser chamada de exagerada, maluca. Difícil é ser mulher. De todos os jeitos possíveis, difícil é ser mulher.
Fácil é ser homem.
Mas porque diabos eu desejaria ser homem? Odeio caminhos fáceis.

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