sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eu sou tudo aquilo que disseram que eu não era

Certos rótulos em certas formas de se dizer corroem a alma e largam palavras dentro do ouvido da escória. E as palavras se fundem e se afundam, as palavras mofam e criam poeira, dentro de uma zona dística de conforto que possui ventania leve. E a gente se habitua a usar aquilo ao nosso favor. São tantos favores que chegam a ser desfavores inconscientes. Me cansa todo esse pragmatismo emocional e as etiquetas que grudam na minha testa. Mas quero alguém que assuma a verdade mal-cheirosa, aquela que não toma banho a cinco dias. Com arrependimento e remorso eu digo, eu crio, eu invento, eu imagino a verdade. A verdade mutável, a verdade fixa. Eu não sei. Mas é uma verdade. Se não aqui, é em outro lugar. E será aqui um dia. Mas alguém pôs o dedo na minha goela e eu pude dizer: eu sou tudo aquilo que disseram que eu não era.
Eu sou a ruindade e o grotesco.
Mas não me anulo também da bondade e mansidão.
O bom e o ruim andam de mãos dadas. O ser humano é tudo aquilo que diz não ser. Somos o neutro e o imóvel em estado de convulsão, chocando-se na plenitude do chão.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Meio-dia de uma segunda-feira

No âmago mais insaciável do meu ser, avista-se á fundo um buraco negro. Um buraco que usurpa robustez, assim como a relação de um vampiro com o sangue humano. Eu encontro a força, mas não há a oportunidade de se dar o primeiro passo. O primeiro passo nasce do lado de dentro, mas meu lado de dentro é indecifrável. Trancafiado por vinte e sete chaves. O que penso que ainda está por decifrar, já decifraram. E o que já decifraram o deparei morto e sujo com moscas morando em cima daquele rigor, impenetrável. O sentimento é inválido quando o ceticismo grita no ouvido da inocência. E eu tento controlar os gritos, evita-los de entrarem, mas é tudo oco. Não existe saída e não existe guia. Eu poderia doar meu coração para alguém. Um dia.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Frio

Meu paladar não saboreia mais os gostos exóticos que achava que saboreava. A soberba chegou á um estado que ficaste todo pobre, em que não existe nem mais a prática e eficiente de auto-estima. Minha pele se dilatou em um dia comum. Lágrimas desceram e rolaram até o peito. Amargurado e agora sem prazer usual. Minha ferida se tornou invisível. Transformou-se e nada mais tromba em meu caminho coberto de lama, onde sujando meu sapato em casa já chego também com a alma suja. O dia está ensolarado, mas aqui dentro faz frio. Faz frio e neva excessivamente.
O chão tinha uma mensagem escrita em giz, mas eu não consigo ler. Alegoricamente, a neve me cega.

Resto

Eu daria meu coração para você. Cada pedacinho que você quebrou. E faria você fazer questão de construí-lo novamente, com as suas próprias mãos que jogaram pedra no mesmo. Faz tanto tempo mas em certos dias me pego no ócio pensando sobre. Você, o que nunca deu certo e toda a bolha meticulosa que nos envolvia, acidentalmente. Dias de hoje sou só resto de uma paixão que não ficou. Sou resto da areia que costumávamos pisar, sou aquele grão que esmagaste com os pés e não percebia, assim, bem daquele jeito sonso de ser que você tinha. Não acho que saudade seja o sentimento certo, mas colocando as cartas na mesa, não tem outra palavra no nosso mundo que descreva o aperto no peito de relembrar passado. Se outras palavras existirem para essa consternação em um vácuo, um dia eu invento.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nos acostumamos (2)

Acho que me acostumei á coisas demais. Tenho uma vontade absurda de fazer o que não faço, de costume. Mas não o faço, pois me acostumei. Como eu digo para as pessoas que eu amo, que eu as amo de verdade, se palavras não são concretas e vão perdendo o sentido a cada vez que são repetidas? Se são repetidas todos os dias sem ter a intenção de provocar nada? Palavras não significam nada. Mas ás vezes significam tudo.
O açúcar em casa acabou, tenho que me arrumar para ir ali no mercado. Mas, se arrumar pra quê? No final de tudo, não é a primeira impressão que fica mesmo.
Eu acordo todos os dias e saio da cama. O sair da cama não representa nada pra mim. As pessoas saem da cama para poder viver. Eu saio por costume. Pra quê sair da cama se não vejo sentido no viver?

Eu queria achar um jeito de dizer para as pessoas que eu amo como eu as amo.
Eu queria que ás vezes fosse a primeira impressão que ficasse. As pessoas são uma teia de obscuridade no final de tudo. (Apesar deu gostar disso).
Eu queria achar sentido no viver.

Me acostumo á coisas demais.