domingo, 2 de agosto de 2015

Vinho.

A perda foi imensa. A perda que esqueceu-se da própria existência, e deixou um gosto amargo em minha boca. Amargo, e do teu rosto, desfigurou-se uma caricatura azeda e exímia onde relutei em esconder debaixo do meu tapete vermelho. Mas o tombo é sempre gratificante no futuro distante. Aquele futuro que não consegue enxergaste nem em miragens. Neste futuro que não chega depressa porque é amigo do presente do pretérito imperfeito. E este presente, que cede e cega as lembranças com um gosto doce e amargo onde desce na garganta, entalando em um paladar estrangeiro. E meu sangue corre em cor de vinho tinto, assim como a cor de tua boca, pela última vez que a vi. Que a vi de tão perto, mas não podia alcança-la mais. Já não podia toca-la. Já não podia beija-la.
E eu derramo o vinho tinto na mesa, para lembrar-me de você outra vez. Eu deixo cair vinho tinto na mesa, legando uma melancolia funcionando como triturador de instintos de um desejo incurável. Tudo isso parece proposital.

O amargo do vinho seco na boca ficou.
E a doçura do vinho tinto na boca foi embora.

Eu derramo vinho para dissolver-se a sua pessoa, como quiser nas pontas soltas da minha memória. Eu não te esqueço.

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