domingo, 2 de agosto de 2015

O que dizem as vozes

O pensar do sentir, por si só, já machuca e aperta. A cada ano, mês, semana, dia que vão galgando entre meus olhos obstinados, o nó na garganta e o monstro violento que parasita em mim vão desenvolvendo maior força. Uma força em que - eu, em ânimo e plano vitimista - não advindo de lutar contra eles. Todos os demônios do meu habitat estão limpos e prontos. Todos sorriem estalando os dedos apontando facas cegas em meu rosto nervoso e choroso. Escondo-me embaixo da coberta, enquanto as lágrimas transfiguram a cama em um rio espurco. Empregando a imaginação de que isso - algum dia - poderia salvar-me de ser quem sou. Do sentir. O sentir tudo. O sentir que arde na garganta e queima no peito. O sentir do desespero de não ter como correr para fora de si mesma. Eu não posso fugir. Não posso. E os demônios estão aqui. Os demônios estão parados em minha frente, e tiram a coberta do meu rosto. Descortinam meu mundo de criança. E em vozes duras e rígidas, repetem em tons bárbaros: "Não lhe aguenta todo o peso do mundo. O mundo maltrata. E você é fraca demais para suportar."

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